Principais Discípulas do Buddha

 
1) Mahāprajāpatī: a primeira monja buddhista

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Nesta seção, vamos apresentar brevemente as histórias de algumas das principais discípulas monásticas do Buddha. A começar com Mahāprajāpatī.

Ela foi tia do próprio Buddha. Também casada com o rei Suddhodana, tornou-se rainha de Kapilavastu e passou a cuidar do jovem príncipe Siddhārtha logo que este perdeu sua mãe. Mais do que tia, portanto, Mahāprajāpatī era como a própria mãe de Siddhārtha. Em grande parte, foi ela a responsável por educá-lo e ajudá-lo a crescer bem.

Mahāprajāpatī Gautamī (em sânscrito, Mahāpajāpatī Gotamī em pali) era descrita como uma mulher forte e decidida. Foi ela quem amparou Yaśodharā e Rāhula, bem como toda a família, quando o príncipe Siddhārtha precisou sair do palácio; e foi ela, também, quem ajudou o rei em seus piores momentos, permanecendo ao seu lado quando este enfrentava terríveis enfermidades.

Após a morte do rei Suddhodana, quando Siddhārtha já havia alcançado a Iluminação, Mahāprajāpatī decidiu que havia chegado a hora de tornar-se, ela própria, uma praticante monástica. Tal coisa não existia na Índia daquela época: às mulheres não era permitido, em nenhuma seita ou lugar, que se tornassem monjas. Mas Mahāprajāpatī estava decidida. Ela queria trilhar o mesmo caminho que o próprio Buddha e, assim pensando, vestiu os mantos de um renunciante e raspou os cabelos. Ela levou consigo sua nora Yaśodharā e outras centenas de mulheres que partilhavam da mesma aspiração. Foram procurar o Buddha.

Segundo conta a história, Buddha recusou seu primeiro pedido. Embora reconhecesse a igualdade entre homens e mulheres, ele sabia que as condições seriam demasiado áusteras, perigosas, e desfavoráveis, para mulheres renunciantes naquela sociedade. Mas Mahāprajāpatī e suas demais companheiras não se importavam com isso; elas não estavam dispostas a desistir. Seguiram o Buddha estrada afora, viajando quilômetros e enfrentando intempéries, determinadas a insistir em seu pedido.

Chegando ao monastério de Kutāgāra, contaram ainda com a intermediação de Ven. Ānanda, que perguntou ao Buddha: “Se as mulheres se tornarem renunciantes, e praticarem o Dharma apropriadamente, serão elas capazes de alcançar os mesmos frutos do Caminho para a Liberação?” Ao que Buddha assentiu. De fato, segundo ele, as mulheres são capazes de obter as mesmas realizações que os homens; todas podem alcançar a Completa Liberação. Essa foi uma declaração inédita na Índia daquele tempo.

Mediante essa afirmação, e à despeito de todos desafios e dificuldades que o Sangha de monjas enfrentaria por parte de uma sociedade preconceituosa, Buddha aceitou o pedido de Mahāprajāpatī. Ela foi a primeira mulher a ser ordenada como bhikṣuṇī (monja budhista), e na sequência todas suas companheiras também o foram. Naquele dia, deram origem a primeira comunidade monástica de mulheres na história da Índia e do mundo.

Ao longo de sua carreira monástica, Mahāprajāpatī e suas companheiras enfrentaram, de fato, muitos desafios advindos de seu tempo e sua cultura. Mas todas perseveraram. A própria Mahāprajāpatī levou uma vida de firme dedicação à prática espiritual, ajudando e instruindo as demais monjas buddhistas. Ela ficou conhecida como “Grande Anciã”, aquela com mais tempo de ordenação entre todas as monjas.

Nos seus últimos momentos, já com idade avançada, anunciou que adentraria o parinirvāṇa e consolou suas companheiras dizendo: “Todos os fenômenos são impermanentes, todos teremos que nos separar ao fim”. E assim dizendo, ela entrou nos profundos estados meditativos (dhyanas) e se foi. Mahāprajāpatī foi a única pessoa nos registros buddhistas que fez essa passagem de modo idêntico ao próprio Buddha.

2.  Khemā: a primeira em sabedoria
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Khemā era a rainha de Magadha. Famosa por sua beleza descomunal e também por sua inteligência, foi casada com rei Bimbisara: um dos mais devotados discípulos laicos de Buddha.

No passado, quando Siddhārtha era apenas um monge errante e mendicante, ele fez amizade com o marido de Khemā, rei Bimbisara, e prometeu que Magadha seria o primeiro reino a receber ensinamentos quando ele atinasse com a Iluminação. Anos mais tarde, Siddhārtha já havia se tornado o Buddha e ali se encontrava para cumprir sua promessa. Buddha visitou Magadha repetidas vezes para instruir e guiar a população.

Rainha Khemā, no entanto, não tinha qualquer interesse de se encontrar com o Buddha. A despeito de sua inteligência, ela tinha um sério problema: sentia demasiado orgulho e arrogância; sentia-se superior a todos por conta de sua beleza incomum. Não raro olhava para praticantes espirituais com ares de superioridade, confiante de que já possuía as mais sublimes qualidades. Isso a impedia de aprender.

Seu marido, ciente do gigantesco potencial da esposa, acreditava firmemente que lhe bastaria um encontro com Buddha para abrir o olho da sabedoria. Assim pensando, ele elaborou um plano para ajudar Khemā a superar sua ilusão de falsa superioridade: ordenou que todos os músicos do palácio devessem cantar versos em homenagem ao bosque Ulavana. Pouco depois, havendo já escutado tantas músicas bonitas sobre o referido lugar, Khemā naturalmente despertou a vontade de conhecer o bosque – com suas árvores, flores, riachos e qualidades diversas. O que ela não sabia, porém, era que em Ulavana também se encontrava o próprio Buddha. Ali ficava a residência do Iluminado com seu Sangha de monges e monjas.

Quando Khemā se dirigiu ao bosque, era inevitável se deparar com o Buddha. Ele estava no meio de um discurso e algo ali chamava a atenção: bem ao lado do Iluminado, havia uma moça usando um abanador para fazer-lhe vento. Khemā parou, atônita. Não estava interessada no discurso, mas na jovem. Aquela moça do abanador era definitivamente mais bela do que ela própria! Aquilo parecia impossível, pensava a rainha, que por muito tempo se convencera de ser a mulher mais bela do reino.

Após alguns instantes, a magnífica jovem do abanador começou a mudar. Ela dava mostras de cansaço, inclinava-se à frente, seus cabelos iam esbranquiçando e, sem muita demora, rugas tomaram conta de sua face jovial. Khemā observava em choque: aquela bela garota envelheceu diante de seus olhos, faleceu, e se decompôs ali mesmo, deixando apenas ossos espalhados pelo chão. Em verdade, a garota não existia. Havia sido uma projeção criada pelos poderes sobrehumanos (ṛddhi) do Buddha, especialmente para conferir uma mensagem à rainha. Khemā despertou naquele preciso momento. Voltando sua atenção às palavras do Iluminado, ela obteve ali mesmo a realização do primeiro fruto do despertar: tornou-se uma srotāpanna.

Regressando ao palácio, Khemā contou ao seu marido tudo o que acontecera e contou como havia mudado. Agora, ela desejava tornar-se uma monja. Rei Bimbisara apoiou sua esposa e garantiu que fosse acompanhada por um grande séquito, que lhe prestou honras e homenagens no dia de sua ordenação.

Não demorou muito para que a Venerável Khemā alcançasse a Completa Liberação. Ela foi declarada uma arhant e apontada por Buddha como uma das duas discípulas chefe, ao lado da Venerável Uppalavannā. Tal como Sariputra o era no sangha de monges, Khemā passou a ser conhecida como “a primeira em sabedoria” no sangha das monjas, instruindo e cuidando das demais praticantes.

Khemā era a rainha de Magadha. Famosa por sua beleza descomunal e também por sua inteligência, foi casada com rei Bimbisara: um dos mais devotados discípulos laicos de Buddha.

No passado, quando Siddhārtha era apenas um monge errante e mendicante, ele fez amizade com o marido de Khemā, rei Bimbisara, e prometeu que Magadha seria o primeiro reino a receber ensinamentos quando ele atinasse com a Iluminação. Anos mais tarde, Siddhārtha já havia se tornado o Buddha e ali se encontrava para cumprir sua promessa. Buddha visitou Magadha repetidas vezes para instruir e guiar a população.

Rainha Khemā, no entanto, não tinha qualquer interesse de se encontrar com o Buddha. A despeito de sua inteligência, ela tinha um sério problema: sentia demasiado orgulho e arrogância; sentia-se superior a todos por conta de sua beleza incomum. Não raro olhava para praticantes espirituais com ares de superioridade, confiante de que já possuía as mais sublimes qualidades. Isso a impedia de aprender.

Seu marido, ciente do gigantesco potencial da esposa, acreditava firmemente que lhe bastaria um encontro com Buddha para abrir o olho da sabedoria. Assim pensando, ele elaborou um plano para ajudar Khemā a superar sua ilusão de falsa superioridade: ordenou que todos os músicos do palácio devessem cantar versos em homenagem ao bosque Ulavana. Pouco depois, havendo já escutado tantas músicas bonitas sobre o referido lugar, Khemā naturalmente despertou a vontade de conhecer o bosque – com suas árvores, flores, riachos e qualidades diversas. O que ela não sabia, porém, era que em Ulavana também se encontrava o próprio Buddha. Ali ficava a residência do Iluminado com seu Sangha de monges e monjas.

Quando Khemā se dirigiu ao bosque, era inevitável se deparar com o Buddha. Ele estava no meio de um discurso e algo ali chamava a atenção: bem ao lado do Iluminado, havia uma moça usando um abanador para fazer-lhe vento. Khemā parou, atônita. Não estava interessada no discurso, mas na jovem. Aquela moça do abanador era definitivamente mais bela do que ela própria! Aquilo parecia impossível, pensava a rainha, que por muito tempo se convencera de ser a mulher mais bela do reino.

Após alguns instantes, a magnífica jovem do abanador começou a mudar. Ela dava mostras de cansaço, inclinava-se à frente, seus cabelos iam esbranquiçando e, sem muita demora, rugas tomaram conta de sua face jovial. Khemā observava em choque: aquela bela garota envelheceu diante de seus olhos, faleceu, e se decompôs ali mesmo, deixando apenas ossos espalhados pelo chão. Em verdade, a garota não existia. Havia sido uma projeção criada pelos poderes sobrehumanos (ṛddhi) do Buddha, especialmente para conferir uma mensagem à rainha. Khemā despertou naquele preciso momento. Voltando sua atenção às palavras do Iluminado, ela obteve ali mesmo a realização do primeiro fruto do despertar: tornou-se uma srotāpanna.

Regressando ao palácio, Khemā contou ao seu marido tudo o que acontecera e contou como havia mudado. Agora, ela desejava tornar-se uma monja. Rei Bimbisara apoiou sua esposa e garantiu que fosse acompanhada por um grande séquito, que lhe prestou honras e homenagens no dia de sua ordenação.

Não demorou muito para que a Venerável Khemā alcançasse a Completa Liberação. Ela foi declarada uma arhant e apontada por Buddha como uma das duas discípulas chefe, ao lado da Venerável Uppalavannā. Tal como Sariputra o era no sangha de monges, Khemā passou a ser conhecida como “a primeira em sabedoria” no sangha das monjas, instruindo e cuidando das demais praticantes.

3. Utpalavarnā: a primeira em feitos miraculosos
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Utpalavarṇā (em sânscrito, Upalavannā em pāli) era a filha de um grande milionário na cidade de Srāvasti. Seu nome faz referência à compleição bela com a qual era dotada que, segundo diziam, assemelhava-se a uma esplendorosa flor de lótus. Tamanha beleza trouxe consigo boa dose de dificuldades naquele contexto: a começar, seu pai recebera infinitas propostas de casamento para ela. Eram tantos os candidatos que ele não sabia o que fazer. Muitos eram obcecados pela jovem. Passado algum tempo, ela e o pai perceberam que não importava com quem se casasse, acabariam despertando o rancor e a inimizade de outros tantos pretendentes mais – os quais prometiam retaliação.

Para escapar desse cenário caótico e doentio, bem como ajudar o próprio pai, Utpalavarṇā decidiu tornar-se uma renunciante. Ela entrou para o sangha de monjas do Buddha. Uma vez ali, praticou diligentemente e obteve rápido progresso na via espiritual.

Certa vez, quando estava responsável por acender lamparinas e preparar o salão para a recitação vespertina, Utpalavarṇā se pôs a contemplar uma das velas recém acesas. Enquanto esperava as demais monjas, permaneceu observando a chama e aí estabeleceu uma forte concentração. Naquele momento, ela vislumbrou profundamente a lei de Surgimento Condicionado percebendo a interação da chama, do pavio, e dos demais elementos que participavam daquele processo. Utpalavarṇā alcançou um profundo despertar.

Em pouco tempo, foi reconhecida pelo Buddha como uma Arhant; ou seja, como alguém que atingiu a Completa Liberação. E não apenas isso, Utpalavarṇā foi também indicada como uma das duas discípulas chefe: ao lado da sábia Khemā, Utpalavarṇā ganhou a responsabilidade de cuidar e guiar a comunidade de monjas.

Ela se destacava por sua capacidade de perfazer feitos miraculosos, sendo colocada no mesmo nível do Venerável Maudgalyāyana. Embora Buddha desaconselhasse o uso corriqueiro de habilidades extraordinárias, ele próprio chegou a pedir que alguns de seus discípulos e discípulas exibissem suas capacidades quando a situação era propícia. Assim sendo, houve ocasiões onde ele pediu que Utpalavarṇā demonstrasse suas habilidades a fim de dissipar as dúvidas de alguns praticantes, os quais insistiam em crer que mulheres não eram capazes de grandes realizações espirituais:

“Demonstre a potência espiritual de seus feitos miraculosos (rddhi) em prol daqueles que atendem à minha Doutrina; em prol da Quádrupla Assembleia, agora, faça-o para que dúvidas remanescentes possam ser eliminadas” (Uppalavaṇṇā Apadāna, v 388).

Infelizmente, porém, sua história não traz apenas registros de alegrias, grandes feitos e realizações. Acontecimentos trágicos também aparecem na sua biografia. Tal como o próprio Maudgalyāyana que, embora fosse descrito por Buddha como primeiro em feitos miraculosos, faleceu atacado por bandidos sendo incapaz de usar suas habilidades; assim, também, a Venerável Utpalavarnā se viu em uma terrível situação na qual não conseguiu se proteger recorrendo às suas habilidades. Segundo a história, ela foi seguida por um dos antigos pretendentes, homem obcecado e doentio, e foi violentada após um ataque surpresa. Tal homem teria morrido logo em seguida (nas escrituras, utilizam o termo “tragado pela terra”, significando que teve uma morte abrupta como consequência imediata de ferir uma pessoa santa).

O episódio, embora dúbio e negado por algumas fontes, traz assim mesmo algumas reflexões importantes: quando pesados karmas passados tomam fruto, nem sequer riquezas, poderes ou habilidades especiais poderiam livrar alguém dos respectivos resultados. Até mesmo os maiores arhants estavam sujeitos à maturação de seus antigos karmas lesivos. Fora isso, este acaba sendo um caso representativo das muitas dificuldades sofridas pelas mulheres na Índia do Buddha, e destaca uma das razões pela qual o primeiro pedido para estabelecer um sangha de monjas foi recusado. Num cenário tão hostil, toda comunidade de praticantes teve de rever questões de segurança para assegurar o bem-estar das renunciantes. Buddha transferiu todas as monjas que viviam em cabanas solitárias naquela região para o monastério de Jetavana, de modo que suas residências ficassem mais ao fundo do bosque (para acessá-las, qualquer um teria primeiro que passar pelas residências dos monges). Mais tarde, outros reis e benfeitores ajudariam na construção de novos monastérios para as praticantes.

Utpalavarnā foi do começo ao fim uma praticante exemplar, inabalável, cuja mente se manteve pura – como atestou o próprio Buddha – a despeito de todas as vicissitudes que enfrentara. Como a própria flor de lótus (utpala) que emerge da lama sem se macular, a venerável transitou pelo mundo com todas suas agruras sem se deixar afetar. Fez-se guia e inspiração para demais praticantes.

4.  Patācarā: a primeira na observância do Vinaya
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PARTE I – vida em família

A história de Patācarā é uma das mais impactantes dentre todas, repleta de reviravoltas. Ela nasceu em uma família milionária na cidade de Śrāvastī. Seus pais, superprotetores como eram, chegaram a construir um edifício com sete andares para manter a jovem Patācarā em casa. Queriam afastá-la de todos os perigos e garantir, inclusive, que não se apaixonasse por qualquer homem: pois já haviam arranjado um casamento com um rico pretendente. Esperavam assim unir as fortunas de ambas famílias.

Mas o plano falhou. Patācarā se apaixonou por um dos servos que trabalhava na residência dos pais. Os dois possuíam fortes conexões kármicas passadas. E, quando o momento propício chegou, ela própria se disfarçou de criada, usando roupas humildes, e fugiu com seu amado para bem longe. Escapando do casamento arranjado, dos familiares, da mansão, Patācarā e seu companheiro viajaram até encontrar uma região tranquila onde pudessem se estabelecer. Passaram a viver felizes como marido e mulher num casebre muito humilde em meio ao campo.

Algum tempo depois, Patācarā engravidou. Naquela época, era costume que a mulher retornasse à casa dos pais para dar a luz. E Patācarā estava decidida a fazer cumprir essa tradição. Seu marido, por outro lado, não concordava. Desesperado, ele pensava: “Isso é incabível!”, pois tinha certeza de que os pais da jovem não os perdoariam, e inclusive castigariam ao invés de oferecer ajuda. Marido e mulher não podiam chegar a um acordo. Então Patācarā fugiu.

A jovem pretendia viajar à casa dos pais, mas estava num estágio avançado da gravidez. Como resultado, não houve tempo: o bebê nasceu no meio do caminho. Pouco depois, o marido desesperado alcançou Patācarā e reconfortou a ambos, esposa e filho, trazendo-os de volta ao lar. A ideia inicial de Patācarā não foi exitosa, mas logo voltaram a viver felizes na companhia do filho recém nascido.

Com o passar dos meses, Patācarā engravidou novamente. E todo episódio se repetiu. Bem como outrora, marido e mulher não podiam concordar com o regresso à casa dos familiares; e bem como já fizera antes, Patācarā saiu escondida uma vez mais. Quando estava próximo de dar a luz, ela tomou o filho mais velho e se dirigiu de volta à Śrāvastī: queria cumprir com a tradição e ter seu filho na casa dos próprios pais.

PARTE II – tragédias e vida errante

Uma vez mais, no entanto, Patācarā não conseguiu completar a viagem. Seu segundo filho também nasceu no meio do caminho. E uma vez mais, novamente, o marido correu em seu encalço e chegou a tempo de oferecer ajuda.

Nessa ocasião, porém, as coisas não seriam idênticas. Era já muito tarde da noite e uma forte chuva se anunciava. Seria impossível que voltassem para casa naquele temporal. Assim, Patācarā teve de abrigar-se numa caverna com os dois filhos, enquanto seu marido ia em busca de lenha para acender uma fogueira. A solução era passar a noite ali mesmo.

A essa altura, começa uma grande reviravolta. Enquanto procurava por gravetos, o marido se depara com uma serpente venenosa e é picado. Ele morre. E a esposa fica à sua espera sem entender o porquê de tanta demora a voltar.

Após uma noite fria e difícil, Patācarā e seus dois filhos saem bosque afora apenas para avistar o corpo sem vida do homem. Já não havia muito o que fazer. Entre lágrimas, Patācarā encobriu o rosto do marido com uma folha larga e prestou sua última homenagem – não havia sequer como sepultá-lo. Agora perdida e sem amparo, a jovem tomou seus dois filhos e decidiu continuar caminho para a casa dos pais. Talvez, pensava, eles pudessem ajudá-la.

A chuva da noite anterior, no entanto, causou mais estragos. O rio que anteriormente podia ser atravessado a passos tranquilos, raso, agora havia subido até a altura do peito. Suas águas eram violentas. Patācarā precisava cruzar aquele rio para seguir viagem, então pensou em como levar as duas crianças: o mais velho ela deixaria numa margem, enquanto atravessava com o bebê; depois, voltaria para buscar o primogênito, atravessando com um de cada vez. E assim ela fez. Chegando na outra margem, Patācarā depositou o filho recém nascido numa grande rocha e voltou em busca do menino mais velho. Tão pronto se achava na metade da travessia, porém, aconteceu o pior: uma águia lançou-se sobre o bebê que repousava na rocha e levou-o embora. Patācarā tentou afastar o pássaro gritando e fazendo todos os gestos possíveis. Foi em vão. A ave já havia partido com o pequeno bebê. Por outro lado, ao ver como a mãe gesticulava e gritava, o filho mais velho pensou: “Deve estar me chamando!”, e entrou na correnteza. Num piscar de olhos, foi arrastado. E num piscar de olhos, Patācarā estava só: havia perdido não apenas o marido, mas os seus dois filhos queridos.

Ela chorou até desmaiar e quedou prostrada, sem forças, numa das margens do rio.

Mais tarde, ao recobrar os sentidos, Patācarā seguiu rumo à cidade de Śrāvastī. A casa de seus pais era seu último alento, sua última esperança de encontrar algum conforto após tantas desgraças sucessivas. Quando chegou, deparou-se com um homem a repreendê-la: “Você está atrasada! Que péssima filha é você! Como ninguém veio a tempo, nós, os vizinhos, tivemos que sepultar sozinhos toda a família”. Ela não podia acreditar… A mesma chuva da noite anterior havia levado a mansão de seus pais a ruir, desabando e matando todos os familiares restantes. Patācarā estava completamente só. Todos haviam morrido. Diante dessa última notícia, ela perdeu a razão; saiu gritando pelas ruas, a esmo, sem saber o que fazer. Havia enlouquecido.


PARTE III – encontro com Buddha, o despertar

Havendo sofrido tão duras experiências, Patācarā perdeu o rumo. Passou a vagar pelas ruas da cidade, e tornou-se uma mendicante. Andava nua e suja, sem qualquer cuidado, sem qualquer vestígio de lucidez. O brilho de seus olhos havia partido. Ela comia o que encontrava no lixo, e passava os dias falando sozinha; ora fazendo gestos de quem tenta afugentar uma ave, ora chamando pelos filhos, ora chorando solitária. As demais pessoas a maltratavam, acreditando que era uma fonte de má sorte. Para todos, era apenas uma louca amaldiçoada, da qual queriam manter distância… Para todos, mas não para o Buddha.

Numa ocasião, quando o Iluminado se encontrava em Śrāvastī mendicando seu alimento, ele avistou Patācarā. Dirigindo-se a ela, dotado de uma forte presença espiritual, ele a chamou com uma voz firme porém compassiva: “irmã!”. E segundo conta a história, aquele solene chamado teve o poder de trazer a mente de Patācarā de volta à realidade. Quando ela se viu diante do Abençoado, tratou de acalmar-se e gradualmente foi voltando a si. Trouxeram-lhe então uma roupa para que pudesse se cobrir. Pela primeira vez em muito tempo, Patācarā estava em posse de seus sentidos.

O Buddha, então, sabendo que aquela mulher estava preparada para os mais elevados ensinamentos, tratou de oferecer-lhe uma instrução. Ele falou para Patācarā sobre a impermanência, sobre a natureza universal do sofrimento, sobre a insatisfatoriedade dos prazeres mundanos, e a inefabilidade da morte. Ao fim, falou também sobre a possibilidade da completa eliminação de todos os males: o nirvana.

Patācarā despertou. Ela quis tornar-se uma renunciante e, assim, levaram-na ao monastério das bhikṣuṇīs (monjas buddhistas), onde finalmente pode receber maiores cuidados. Em pouco tempo, praticando sob a instrução do Buddha, ela se tornaria uma arhant: alcançando a completa Liberação. Para a surpresa geral de muitos, Patācarā foi reconhecida pelo próprio Buddha como a mais proeminente na observância do Vinaya (as regras de disciplina, conduta e etiqueta dos monges buddhistas). E após transitar por tantas experiências de dor, ela finalmente obteve a paz definitiva.

Um exemplo de fortitude, superação e restauração para muitos praticantes, a Venerável Patācarā, a mais proeminente na observância dos preceitos monásticos, dedicou o resto dos seus dias a guiar e auxiliar as demais praticantes.

5.  Dhammadinnā: a primeira na exposição do Dharma

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I. BOAS RAÍZES PLANTADAS EM VIDAS ANTERIORES

Venerável Dhammadinā foi elogiada por Buddha como sendo a mais formidável na habilidade de esclarecer o Dharma. Conta-se que, em uma de suas vidas passadas, ela renascera como uma serva no tempo do Buddha Padumutra, numa cidade chamada Hamsavati. Naquele tempo, a jovem se deparou com um discípulo monástico do Buddha e lhe ofereceu alguns doces, impressionada pelos modos atentos e compassivos do contemplativo. Não satisfeita, ela também o convidou para aceitar uma refeição mais completa na casa onde vivia. E graças a isso, esse venerável discípulo, de nome Sujata, seguiu caminho até o lar da jovem e ali se encontrou com os donos da casa. Venerável Sujata ofereceu ensinamentos e alegrou profundamente todos os presentes, incluindo o patrão daquela jovem serva. Satisfeitos com a oportunidade que sua criada lhes havia oferecido, trazendo tamanho sábio para perto de si, decidiram incorporá-la definitivamente no seio da família: aceitaram-na como nora. Devido aos méritos produzidos pelo seu gesto generoso e cheio de reverência, a vida da jovem mudou consideravelmente para melhor.

Algum tempo depois, essa jovem conseguiu se encontrar com o Buddha Padumutra e escutou-o elogiando uma monja da seguinte maneira: “a mais formidável na habilidade de esclarecer o Dharma”. Impressionada, ela fez um voto em seu coração; desejou que algum dia também ela seria capaz da mesma façanha. E aquele Buddha, ciente de tal pensamento, foi até a jovem para profetizar que sua aspiração traria frutos… Vidas mais tarde: na época de um Buddha chamado Śākyamuni.


II. NA ÉPOCA DE BUDDHA ŚĀKYAMUNI

Em sua última vida, Dhammadinnā foi a filha de um grande milionário em Rajāgrh. Quando cresceu, casou-se com um bom homem chamado Visākhā, abastado conhecido do rei Bimbisāra. Ambos se tratavam muito bem, e a vida lhes seguia tranquila; estavam envoltos por condições favoráveis.

Certo dia, o marido partiu em uma de suas viagens de negócio e acabou se encontrando com Buddha Śākyamuni. Ele se deteve e escutou os ensinamentos do Buddha. Sem qualquer demora, Visākhā, que era dotado de agudas capacidades, compreendeu o sentido profundo do Dharma e atingiu o primeiro estado da liberação: tornou-se um srotāpanna; isto é, “alguém que adentra a correnteza” (do despertar).

Quando retornou ao lar, Visākhā contou para Dhammadinnā sobre o que havia aprendido. A esposa, também entusiasmada, expressou seu desejo de ir aprender com o Buddha. Até mais, em função de seus votos anteriores, brotou em Dhammadinnā o anseio intenso de se tornar uma renunciante: ela queria se fazer uma bhikṣuṇī (monja buddhista).

O marido Visākhā apoiou a aspiração da sua esposa. Ajudou-a, conduzindo-a pessoalmente ao local onde se encontrava o Buddha e, ali, Dhammadinnā ingressou no Sangha de monjas. Com os méritos e virtudes acumulados em suas existências prévias, não tardou para que venerável Dhammadinnā alcançasse a condição de arhant, levando a cabo o ideal da vida santa na disciplina buddhista.

Bem como profetizado anteriormente, Buddha Śākyamuni, reconheceu Ven. Dhammadinnā como sendo “a primeira na capacidade de pregar o Dharma”. Ela passou a ensinar grandes audiências, incluindo reis e ilustres figuras.

Visākhā, de tempos em tempos, escutava dela exposições profundas sobre o Dharma. Certa vez, formulou uma pergunta difícil e prestou atenção à resposta; logo depois, levou a mesma questão ao próprio Buddha e, para sua surpresa, observou que Buddha respodia exatamente do mesmo modo que a Ven. Dhammadinnā. Visākhā se sentia feliz de haver apoiado o sucesso da venerável; ao fim, ela se tornou uma das mais influentes discípulas de Buddha.

6.  Nandā: a primeira na prática de dhyāna

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Venerável Nandā era a meia-irmã do Buddha, filha de rei Suddhodana e Mahāpajāpatī. Como várias outras discípulas da época do Buddha Śākyamuni, conta-se que em uma de suas vidas passadas ela se encontrara com o Buddha Padumutra e fizera votos, bem como oferendas, por meio dos quais sempre renasceu vida após vida em condições favoráveis. Nesta sua última existência, em função das ações positivas semeadas no passado, Nandā não apenas pertencia à família real dos Śākya, sendo uma princesa, mas era dotada de suma beleza e respeitada por todos. Diferentemente de outros membros da família real, era especialmente admirada e atraía sobre si o apoio e a reverência das pessoas – todos gostavam muito da princesa Nandā.

Quando o rei Suddhodhana faleceu e a rainha Mahāpajāpatī ingressou no sangha de monjas, Nandā resolveu seguir os passos do seu irmão e mãe: ela também renunciou à vida em família e se tornou uma bhikṣuṇī (monja buddhista).

Não obstante, de modo muito parecido com o caso de rainha Khemā, que se orgulhava sobremaneira de sua beleza, Venerável Nandā também se achava presa à obsessão por suas qualidades. Regozijava-se com o modo diferenciado como era tratada, com os elogios e favores que brotavam espontaneamente de todos ao seu redor, em função de seu carisma; sentia-se acima de tudo orgulhosa por conta de sua nobre aparência e seus modos distintos. E assim sendo, não conseguia fazer progressos na prática monástica.

Sabendo de sua própria vaidade e temendo que Buddha a repreendesse por ser orgulhosa de si, Venerável Nandā evitou o Professor por um longo tempo. Ela literalmente fugia, pois tinha vergonha de receber uma dura reprimenda. Consciente disso, Buddha mandou que a chamassem até sua presença. Para o espanto da jovem, no entanto, Buddha não a acusou de nada. Ao contrário, começou a ensiná-la falando de suas boas qualidades, de modo que ela se sentiu profundamente motivada.

Percebendo que Nandā estava pronta, o Professor recorreu ao mesmo método que utilizou para despertar a rainha Khemā: com suas faculdades psíquicas, ele projetou a imagem de uma bela mulher, ainda mais elegante do que Nandā, e isso chamou a atenção da jovem monja. Aquela imagem rapidamente envelhecia e se desfazia sob a cuidadosa observação de ambos; atributos como força, saúde, vigor, beleza, juventude e elegância se dissipavam levados pela ação da impermanência. Naquele exato momento, Venerável Nandā compreendeu como nenhum daqueles fatores constituía um refúgio seguro, e conseguiu despojar-se do orgulho que a limitava. Agora, nem fama e elogios, nem vigor e saúde, nem beleza e distinção tomavam a mente da praticante.

Passado pouco tempo, ao meditar sobre a impermanência e sobre a não-atratividade dos fenômenos mundanos a venerável atingiu profundos estados de concentração e, finalmente, realizou o estado de arahant. Nandā se tornou uma das discípulas libertas do Buddha, uma nobre sábia, livre das aflições do desejo, cobiça e ignorância; livre do nascimento e da morte. Bem como desejara em suas vidas passadas, ela ficou conhecida como a mais notória na prática dos profundos estados de concentração (dhyānas); e concretizou, assim, todos os seus antigos votos.

7.  Sonā Theri: a primeira em perseverança
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I. VIDA EM FAMÍLIA

A história da Venerável Sonā Therī (anciã) começa como a de muitas grandes discípulas da época do Buddha. Conta-se que, em uma de suas vidas passadas, também ela se encontrara com o Buddha Padumutra e fizera votos de se tornar uma monja renunciante (bhikṣuṇī). Naquele tempo, ao ver Buddha Padumutra elogiando uma aluna por ser a mais perseverante, ela própria desejou que algum dia alcançaria a mesma notoriedade.

Tempos depois, Sonā renasceu em Sāvatthī, na época de Buddha Śākyamuni. Desfrutou de uma vida confortável, já que sua família era bem abastada; e, no momento propício se casou. Sonā teve dez filhos e chegou à idade avançada sem grandes dificuldades.

Quando seus filhos já estavam grandes, e ela já possuía vários netos, porém, o seu idoso marido decidiu tornar-se um monge. Sonā não quis fazê-lo, pois seu apego aos filhos e familiares era ainda muito forte. Como tal, ela permaneceu na sua casa.

Passado mais algum tempo, os filhos começaram a falar para a mãe: “Você está agora sozinha, não precisa de uma casa tão grande”. E assim convenceram-na a entregar a residência para eles. Logo depois, disseram o mesmo em relação às propriedades e servos e posses: “Você está sozinha e velha, é difícil cuidar de tanta coisa. Deixe conosco e tenha mais tempo livre para apreciar seus netos”. E assim, novamente, convenceram-na a abdicar de seus pertences.

Sonā foi viver na casa do primeiro filho. E em pouco tempo, acabou percebendo a dura realidade de seu engano: não era bem tratada; não era benquista ali. Então, decidiu mudar-se para a casa do segundo filho: e tudo se repetiu. Do primeiro ao décimo, nenhum houve que acolhesse Sonā de modo sincero e satisfatório. Sonā, então, se desencantou dos vínculos familiares; a paixão e as expectativas que ela projetava sobre a família, como sendo um refúgio seguro e fonte irrefutável de felicidade, dissolveram através dessa experiência. Livre do apego que anteriormente a tolhia, e impulsionada por essa decepção, Sonā partiu da vida em família para a vida errante de uma monja: tornou-se uma bhikṣuṇī.

II. VIDA MONÁSTICA

Quando ingressou no monastério, Venerável Sonā ainda sofreu várias dificuldades. Sua memória debilitada não permitia que focasse no aprendizado, na recitação e nos estudos da doutrina. Ademais, as monjas mais novas a subestimavam por ser demasiado idosa; tratavam-na quase tão duramente quanto os familiares de outrora.

Mas venerável Sonā perseverou. Como tinha dificuldades nos estudos, decidiu dedicar-se prioritariamente ao exercício da meditação. Vivia de modo simples, sem contar com o apoio e incentivo de terceiros, mas perseverante no próprio esforço. Ela havia se tornado monja em idade avançada, e levava consigo hábitos antigos difíceis de corrigir. Pouco a pouco, porém, ela foi praticando e transformando sua conduta – sem jamais desistir.

Um dia, ocorreu que Buddha ofereceria palestra num local relativamente próximo ao monastério onde se encontrava Venerável Sonā. Ela estava ansiosa para ver o Mestre. Mas as demais monjas diziam: “A senhora anda muito devagar, assim chegaremos quando o discurso já tiver acabado. É melhor que fique aqui e esquente água para que possamos usar quando voltarmos”. E assim, deixaram-na para trás.

A venerável Sonā, então, deteve-se a contemplar o fogo com o qual fervia a água. Meditando naquilo, obteve um forte insight sobre a natureza do fogo; viu como ele se extinguia na ausência de combustível. Ela também entendeu como, em si mesma, as aflições mentais podiam de igual modo se exaurir privando-lhes do combustível que as alimentava. Venerável Sonā teve uma profunda compreensão do Surgimento Condicionado, e compreendeu quais causas e condições mantinham “acesa a chama do seu sofrimento”. Meditando assim, ela rapidamente alcançou a condição de arhant – a liberação pessoal.

Mais tarde, quando as demais monjas regressaram, assustaram-se ao constatar que a água fervida por Venerável Sonā não acabava. Por mais que a utilizassem, permanecia a mesma quantidade no recipiente. Quando questionaram suas professoras sobre o significado daquele estranho fenômeno, elas confirmaram que deveria ser um sinal da realização de Venerável Sonā; um sinal auspicioso de seu poder espiritual. Todas então foram até a perseverante monja para prestar-lhe reverências e se desculpar pelo modo irreverente com o qual a haviam tratado.

Mais tarde, elogiando o esforço da venerável a despeito de sua idade avançada, Buddha a reconheceria como sendo a mais notória em perseverança.

 8. Sakulā Theri: a primeira em visão divina
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Segundo conta a história, a venerável Sakulā havia também se encontrado com um iluminado de eras passadas: o Buddha Padumutra. E assim como outras grandes discípulas, foi graças a este encontro que pôde plantar as raízes meritórias que mais tarde trariam para si os frutos mais elevados do caminho espiritual.

Naquela época distante, ela era a filha de um rei na cidade de Hamsavati. Ali, a jovem presenciou o Buddha Padumutra elogiando uma monja como sendo “a mais notória na habilidade da visão divina”; ou seja, tal monja era capaz de ver seres celestiais, seres de outros reinos, bem como o destino de renascimento daqueles que faleciam. Quando a jovem viu o Buddha Padumutra enaltecendo tal habilidade, ela fez o voto de conseguir no futuro realizar a mesma façanha.

Vidas mais tarde, ela renasceu na era de outro buddha passado: o Buddha Kassapa. Nessa época, ela vivia com simplicidade levando a vida de uma andarilha. E um dia, quando obteve um pouco de óleo, decidiu ascender uma lamparina e oferecê-la diante da stupa daquele buddha. Tamanha era sua sinceridade que, mediante aquela oferenda de luz, vida após vida ela sempre renasceu com olhos radiantes de visão ilimitada. Podia enxergar melhor do que ninguém!

Passado mais tempo, agora na época do Buddha Sakyamuni, a jovem renascera numa família de brâmanes. Rica e bem amparada, ela levava uma vida confortável. Certa vez, depois de se vestir pela manhã, Sakulā ficou observando pela janela todos que passavam. Ela se espantou ao ver uma figura sublime que aparentemente caminhava seguido por humanos e, também, por vários outros seres diferentes. Tratava-se do Buddha. Conforme Buddha Sakyamuni andava em sua ronda de mendicância, pessoas o cumprimentavam e seres celestiais se reuniam ao seu redor. A jovem, cuja visão transcendia as limitações ordinárias, ficou deslumbrada ao ver uma pessoa recebendo tanta atenção e honrarias dos seres celestiais: uma grande confiança e reverência brotou espontaneamente em seu coração.

Rapidamente, Sakulā deixou sua mansão e posses para trás. Indo atrás do Buddha, pediu para ser admitida como uma discípula monástica. E assim, renunciou à vida em família.

Graças aos bons feitos cultivados em vidas passadas, seu caminho para a Liberação estava bem pavimentado. Em pouquíssimo tempo, elas se tornou uma Arhant e levou a cabo seus votos antigos: ficou conhecida como a discípula mais notória no uso da visão celestial. Ela se equiparava ao Venerável Anuruddha, que se destacava entre os monges pela proeminência na mesma habilidade. A Venerável Sakulā era capaz de ver profundamente, entendendo também a disposição das pessoas, entendendo suas mentes e condições. Com essas capacidades, ela acabou se tornando uma importante professora no sangha das monjas – e uma das maiores alunas do Iluminado.

9. Bhaddā Kundalakesā: proeminente pela sua sagacidade e habilidades sobrehumanas

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I. Existências prévias

Em histórias de vidas passadas, conta-se que essa discípula plantou suas raízes meritórias na época do Buddha Padumutra. Ali, havia feito o voto de se tornar uma arhant reconhecida por grande sagacidade e distinção nas habilidades sobrehumanas. Eras mais tarde, em outra vida, ela teria sido uma das filhas do rei Kiki na época de Buddha Kassapa. Estavam com ela irmãs que mais tarde seriam as principais discípulas do Buddha Sakyamuni: Khema, Upalavanna, Patacara, Kisa Gotami, Dhammadinna e Visakha. Nesse tempo, todas desejavam praticar como monjas mas não tiveram condições; então, fizeram votos e conseguiram realizar suas aspirações no período do buddha atual – o Buddha Sakyamuni.

II. Vida em família

Em sua última existência, Bhaddā nasceu no seio de uma família abastada e super protetora. O pai a mantinha confinada dentro de casa, pois temia que pudesse se apaixonar por algum jovem inadequado. E não deu certo. Um dia, Bhaddā viu pela janela um jovem sendo arrastado em meio a uma multidão: era um ladrão que ia ser condenado à morte. Porém, devido a conexões kármicas do passado, ela se apaixonou por aquele homem. Deixou de comer e prometeu que se mataria acaso os pais não fizessem algo para salvar aquele sujeito da execução. Ela estava decidida. E assim, os pais nada puderam fazer senão ajudar aquele ladrão: usando de sua influência, pagaram oficiais do governo para que liberassem o infrator. Em pouco tempo, para desgosto dos pais e da família, Bhaddā se casou com aquele homem.

Todos ainda tinham esperança de que o sujeito, por gratidão, mudasse seus modos e ajudasse nas atividades da família. Mas isso não ocorreu. Na verdade, o ladrão – que agora era também marido de Bhaddā – tinha mais interesse nas joias da mulher do que nela própria. Ele só pensava em dinheiro.

Não muito depois, o ganancioso sujeito propôs uma ideia inusitado: disse que precisava ir às montanhas oferecer presentes em gratidão aos deuses, pois ele havia prometido que assim o faria se escapasse da execução. Convenceu a esposa, Bhaddā, a vestir-se com suas muitas joias e acompanhá-lo naquela empreitada especial. Era apenas mais um truque.

Quando chegaram nas montanhas, o marido pediu a Bhaddā que largassem os servos para trás e fossem sozinhos até o local da oferenda, para agradecer os deuses. Na verdade, ele apenas queria matar Bhaddā e roubar suas joias para, então, voltar a fugir. Quando finalmente se acharam a sós, a beira de um precipício, Bhaddā percebeu o que estava acontecendo: o marido ladrão confessou suas intenções e ordenou que a jovem lhe entregasse as joias. Agora, sagaz como ela era, entendeu que não sairia viva dali se não fizesse algo. Então, ocorreu-lhe um estratagema. Ela disse: “Está bem. Vou lhe entregar as joias e depois você pode fazer o que achar melhor. Mas gostaria de me despedir com um último abraço.”

Quando o homem aceitou abraçá-la, achando que havia conseguido realizar seu plano, Bhaddā o empurrou forte e rapidamente em direção ao penhasco. Para salvar-se, matou aquele homem. Depois disso, sentiu tanta vergonha e arrependimento que nem sequer teve coragem de retornar à casa dos pais. Desapontada com tudo, decidiu tornar-se uma asceta errante em busca do caminho espiritual.

III. Busca Espiritual 

Bhaddā viajou por vários lugares e passou por várias seitas. Por algum tempo, deteve-se em meio aos ascetas Ajivika que tinham o hábito de arrancar os próprios fios de cabelo, um por um. Conta-se que por causa dessa atividade, mais tarde seus cabelos voltaram a crescer e eram extremamente ondulados. Graças a isso, ficou também conhecida como Kundalakesā (cabelos enrolados).

Bhaddā Kundalakesā era extremamente sagaz e saía detabendo com vários ascetas. Ela venceu inúmeros debates até que, um dia, deparou-se com o Venerável Sariputta. Incapaz de responder às perguntas do mais sábio discípulo de Buddha, a asceta Kundalakesā reconheceu sua derrota e seguiu Sariputta. A situação havia despertado nela o desejo de conhecer o professor de tão sábio indivíduo.

Quando finalmente se encontrou com o Buddha, Bhaddā Kundalakesā obteve um profundo despertar após receber uma breve instrução. Os outros monges não entendiam como era possível alguém realizar a fruição do caminho apenas escutando uma passagem tão curta dos ensinamentos, então Buddha lhes explicou que o Dharma não é nem curto nem longo; mesmo uma única sentença poderia desencadear o despertar para aqueles que estão maduros. Kundalakesā, desde muito tempo, já havia plantado as condições para seu despertar. Ao fim, foi ordenada como uma bhiksuni e se tornou uma das principais discípulas de Buddha: ainda mais importante do que a vitória sobre um ladrão ordinário, foi sua vitória sobre as aflições mentais; ela derrotou os ladrões internos chamados ira, cobiça e ignorância, fazendo-se assim mais uma das Arhants.

10. Bhaddā Kāpilānī: a mais notória em rememorar vidas passadas
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Elogiada pelo Buddha como sendo a monja mais habilidosa em recordar suas existências passadas, a venerável Bhaddā Kāpilānī se tornou uma das principais arhants. Em sua história, constam muitas passagens sobre suas vidas anteriores, as quais era especialmente hábil em rememorar: nessas histórias, ela sempre esteve prestando respeitos aos sábios do passado com a ajuda de seu marido; e devido ao forte vínculo entre ambos, sempre estiveram lado a lado.

No tempo do Buddha Padumutra, um dos buddhas do passado, ela e seu esposo foram ricos apoiadores do grupo monástico. Quando aquele buddha deixou o mundo, eles construíram uma imensa torre memorial (stupa) e a decoraram com inúmeras lamparinas.

Vidas depois, ambos renasceram no período do Buddha Vipassi e, novamente, voltaram a se casar. Dessa vez ambos eram brâmanes. Em uma ocasião, o marido se prontificou a doar o único agasalho que dispunha no momento como oferenda ao Buddha e, com isso, emocionou profundamente a esposa. Mediante esse vínculo criado com Buddha Vipassi, ela e o esposo fortaleceram suas convicções e se inclinaram a aprender mais com o Iluminado.

Em outra vida, ainda, ela relembrou ter sido rainha de Varanasi junto com seu esposo – o rei. Aproveitando sua posição abastada, eles continuaram com o hábito de dar suporte à comunidade de praticantes espirituais; e mais, apoiaram com doações centenas de sábios eremitas que se isolavam para praticar.

Houve uma situação, em outra existência posterior, onde ela se dispôs a doar alimentos a um sábio eremita (um pratyekkabuddha). Por razão de uma mentira que lhe contaram, dizendo que o eremita teria criticado aquela comida, ela se enfureceu e, na vez seguinte, colocou um punhado de sujeira dentro da tigela daquele renunciante. O marido acorreu e desmentiu os boatos, limpando a tigela e reestabelecendo a harmonia. A história conta que devido aos méritos de haver doado comida, Bhaddā Kāpilānī sempre renasceu com suma beleza e força física; mas, devido aos deméritos de lançar sujeira na tigela de um iluminado, ela obteve a retribuição kármica de sempre, vida após vida, renascer com um odor corporal incomum e desagradável.

Esse inconveniente foi finalmente superado quando, em uma ocasião futura, ela ofereceu valiosos presentes perfumados diante de uma stupa (torre memorial de um iluminado), prestando respeitos com sincera devoção. De aí em diante, Bhaddā Kāpilānī e seu marido continuaram, vida após vida, se apoiando mutuamente e se ajudando enquanto aperfeiçoavam sua prática da generosidade. Em função desse traço de caráter, os dois sempre desfrutaram de condições prósperas e favoráveis.

Ao fim, quando chegaram no tempo de Buddha Shakyamuni – o buddha da era presente -, Bhaddā Kāpilānī vivia em harmonia com seu esposo. Ambos levavam uma vida casta e já não tinham interesse por afazeres mundanos; dedicavam-se, assim, ao caminho espiritual com especial afinco. O marido foi o primeiro a ser ordenado monge buddhista. Ele ficou conhecido como Venerável Kassapa e foi elogiado por Buddha como sendo o mais notório na habilidade de lidar com filósofos de outras seitas. Algum tempo depois, logo quando a comunidade de monjas buddhistas havia se formado, Bhaddā Kāpilānī ingresssou no mesmo caminho. Ela se tornou uma importante discípula, e sua capacidade de recordar os eventos passados lhe conferiu um reconhecimento especial.